Os homens precisavam de tempo para localizar a culpa em seus arquivos. E encontravam-na junto com “soluções” que os absolvia no julgamento interno. O advogado Benjamin Kulikowsky, de 30 anos, é objetivo no exemplo: “Eu me culpava por chegar tarde do trabalho. Então tive que fazer uma escolha: ou aceitava que não daria para ser de outro jeito ou organizava meu dia para chegar mais cedo”. Ficou com a primeira opção e encerrou o caso. Para uma mulher as coisas não são simples assim. Ela quer entender a origem, fica fissurada em saber o que desencadeou a
sensação – enquanto o que interessa para o homem é resolver. Para a mulher contemporânea, a culpa é uma sombra que a persegue a cada tomada de decisão. O preço que pagamos pela suposta liberdade de escolher como viver a vida. Todas essas teorias e definições, porém, têm algo em comum: a culpa é um reflexo dos padrões sociais a que se pretende corresponder. E até hoje, grosso modo, a sociedade espera dos homens que tenham sucesso no trabalho; e das mulheres, que sejam boas mães.
Antes as mulheres se sentiam culpadas por desejar além de suas possibilidades; lhes era vedado sonhar. Hoje, mais que liberados como necessários os desejos, a mulher sentiria culpa por não atender às expectativas nela depositadas: mãe, gata, inteligente, gente fina, bem-sucedida e tesuda. Expectativas depositadas por quem? Homens, amigas, Freud, Facebook? Ou ela mesma?
(Ronaldo Bressane, 39, é escritor, mas jura que a culpa é da mãe dele)
Por que tudo tem que ser uma experiência maravilhosa, inesquecível? O que fazer com tanta expectativa? [...] o que fazer com essa verdade mentirosa que diz que tudo depende das suas escolhas? Do Mozart que, caso você escolha fazer seu bebê ouvir, o fará mais inteligente à soja que, caso você escolha comer, fará você viver mais. A perguntinha segue ressoando: será que você está fazendo a escolha certa?
Você paga pela frustração de nunca chegar lá – até porque “lá” nunca estará no mesmo lugar – e ganha a culpa de brinde, ao duvidar das escolhas que fez.
(Denise Gallo, 39, é sócia da Uma a Uma).
Reportagem na íntegra: http://revistatpm.uol.com.br/reportagens
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