“Mulher sente mais culpa que homem”, anuncia
Mariana Schwartzmann, psicóloga da Unicamp. Ela conta que até para ir ao seu consultório e deixar o marido cuidando dos filhos já teve paciente que se culpou. Quando a reportagem da
Tpm pergunta se já testemunhou o contrário, ela solta uma boa risada. Não à toa, a culpa é um dos ingredientes da depressão, doença que atinge duas mulheres para cada homem, segundo o Departamento de Psiquiatria da USP. E quando os homens se deprimem os sintomas são outros. “A tendência feminina é ficar com a autoestima baixa, culpada. Já o homem fica agressivo, culpa os outros”, esclarece
Leila Tardivo, psicóloga da USP. Uma das origens dessa diferença é que as mulheres produzem mais estrógeno, hormônio vinculado às relações humanas, enquanto os homens produzem mais testosterona, hormônio ligado, entre outras coisas, à agressividade.
Os homens precisavam de tempo para localizar a culpa em seus arquivos. E encontravam-na junto com “soluções” que os absolvia no julgamento interno. O advogado
Benjamin Kulikowsky, de 30 anos, é objetivo no exemplo: “Eu me culpava por chegar tarde do trabalho. Então tive que fazer uma escolha: ou aceitava que não daria para ser de outro jeito ou organizava meu dia para chegar mais cedo”. Ficou com a primeira opção e encerrou o caso. Para uma mulher as coisas não são simples assim. Ela quer entender a origem, fica fissurada em saber o que desencadeou a
sensação – enquanto o que interessa para o homem é resolver. Para a mulher contemporânea, a culpa é uma sombra que a persegue a cada tomada de decisão. O preço que pagamos pela suposta liberdade de escolher como viver a vida. Todas essas teorias e definições, porém, têm algo em comum: a culpa é um reflexo dos padrões sociais a que se pretende corresponder. E até hoje, grosso modo, a sociedade espera dos homens que tenham sucesso no trabalho; e das mulheres, que sejam boas mães.
Antes as mulheres se sentiam culpadas por desejar além de suas possibilidades; lhes era vedado sonhar. Hoje, mais que liberados como necessários os desejos, a mulher sentiria culpa por não atender às expectativas nela depositadas: mãe, gata, inteligente, gente fina, bem-sucedida e tesuda. Expectativas depositadas por quem? Homens, amigas, Freud, Facebook? Ou ela mesma?
(
Ronaldo Bressane, 39, é escritor, mas jura que a culpa é da mãe dele)
Por que tudo tem que ser uma experiência maravilhosa, inesquecível? O que fazer com tanta expectativa? [...] o que fazer com essa verdade mentirosa que diz que tudo depende das suas escolhas? Do Mozart que, caso você escolha fazer seu bebê ouvir, o fará mais inteligente à soja que, caso você escolha comer, fará você viver mais. A perguntinha segue ressoando: será que você está fazendo a escolha certa?
Você paga pela frustração de nunca chegar lá – até porque “lá” nunca estará no mesmo lugar – e ganha a culpa de brinde, ao duvidar das escolhas que fez.
(
Denise Gallo, 39, é sócia da
Uma a Uma).
Reportagem na íntegra:
http://revistatpm.uol.com.br/reportagens/desculpa-qualquer-coisa.html